Dr.ª Carla Gomes: o bem-estar do ser humano [Entrevista]

Psicóloga, Técnica Superior de Gestão de Recursos Humanos, Formação em Terapias Anti-Stress (massagem) e Formadora. Mas, sobretudo, uma profissional preocupada com o bem-estar de todo o ser humano e membro do Saber & Sorrir.


1- Para si, qual a importância da Psicologia para o desenvolvimento do ser humano?

Desde de muito nova que pensava sobre o desenvolvimento humano como algo muito mais complexo do que diziam as teorias de evolução da espécie, apesar de as admitir como essenciais para a compreensão, atingida mais tarde, do ser humano como um ser pluridimensional.

A importância da Psicologia para o desenvolvimento do ser humano tem, para mim, a importância que a Medicina possui na vida de cada um de nós. Esta comparação pode, à partida, parecer realmente desajustada, principalmente para quem não conhece bem a área. Então, simplificando, o estudo das relações entre o bem-estar físico e psíquico do indivíduo são cada vez mais frequentes, concluindo sempre a forte ligação entre estas duas formas de bem-estar. Mais ainda, hoje em dia já se aposta na Psicologia Positiva como método preventivo de um mau estar psíquico e consequentemente físico, da mesma forma como se divulga uma alimentação saudável e exercício físico como método para evitar doenças como colesterol, obesidade, diminuição de riscos cardiovasculares, etc.

Sendo assim, considero que a Psicologia conquista cada vez mais o seu papel de disciplina fundamental na conquista e manutenção do equilíbrio de cada indivíduo, face a um mundo de mudanças cada vez mais acelaradas que não dão, muitas vezes, margem suficiente a uma adaptação saudável.

2- Psicologia e Recursos Humanos, uma interessante combinação. O que a motivou a seguir este caminho? E como pode uma psicóloga intervir de forma activa nas empresas?

A Psicologia e os Recursos Humanos partilham o mesmo foco geral de estudo: as pessoas, mesmo intervindo, diversas vezes, de formas distintas. A disciplina de Psicologia do Trabalho e das Organizações já me fascina desde os tempos de liceu. A busca de conhecimento sobre a forma de interacção entre pessoas, empresas e resultados é, ainda hoje, um desafio longe de certezas universais.

O interesse pela área de Recursos Humanos surgiu após a experiência de alguns anos a observar o funcionamento global de algumas organizações, enquanto colaboradora comum, mantendo sempre a minha visão consistente com todos os conhecimentos académicos adquiridos. Desafiante é todo o sistema que envolve uma organização, desde a gestão de topo, a criação e toda a sistematização de metas globais; até ao recrutamento, selecção, formação e acompanhamento de toda uma equipa de trabalho, necessária para o atingir de objectivos específicos, numa meta geral orientada para o sucesso.

Uma Psicóloga só pode intervir activamente numa empresa, através de um papel transversal a todo um grupo de trabalho, por maior que seja. A sua actuação deve passar pela mediação de todos os intervenientes, dinamizando projectos e métodos, tendo sempre em conta o indivíduo no grupo, o grupo numa empresa e a empresa num sistema global. Só com a responsabilização de todos se conseguem alcançar objectivos com maior facilidade e dosear esforços mais constantes para vitórias mais sucessivas.

3- Psicologia e massagem… Caminhos que parecem distintos, o que os une?

Aparentemente a Psicologia é uma ciência completamente distinta da técnica de massagens.

Mas vejamos, a massagem específica que abordo, nesta resposta, é a massagem de relaxamento que, como o próprio nome indica, tem como finalidade a obtenção de um estado de relaxamento auxiliado, neste caso, pela manipulação de pontos no corpo humano, através dos dedos, promovendo uma maior activação da circulação. Trata-se de promover um reequilibrio e bem-estar físico, para um desempenho pessoal e profissional mais harmonioso.

Por sua vez, a Psicologia é, de forma sucinta, o estudo científico do comportamento humano, como ser bio-psico-socio-cultural que é, e a sua interligação com todo o ambiente social e ecológico á sua volta. A finalidade desta ciência é entender o ser humano na sua complexidade para auxiliá-lo na busca por uma sensação profunda de bem-estar e equilíbrio emocional.

Então, apesar da aparente incompatibilidade destas áreas, pode considerar-se a massagem de relaxamento como uma terapia anti-stress, que comunga com a Psicologia na procura incessante da sensação de bem-estar e felicidade (ainda que relativa) no ser humano.

4- Na sua experiência pessoal e profissonal o que falta para o ser humano ser feliz?

Na minha opinião, o ser humano necessita entender o que é realmente a felicidade para si próprio, não como fórmula universal de uma utopia imaginária, mas entendendo que a verdadeira sensação de felicidade parte do nosso bem-estar interior, da nossa aceitação enquanto pessoa, com habilidades e limitações, perdoando-se e amando-se antes de tentar socializar e amar os outros. A verdadeira felicidade não depende dos outros nem de nada exterior a nós mesmos, muito menos dos “ses” que deixamos habitar na nossa cabeça.

O auto-conhecimento é a palavra-chave nesta viagem de ganhar sentido pela vida. Este processo implica a separação entre o que queremos e aquilo que querem de nós, entre o que nos preenche e o que nos querem convencer que nos preenche, entre o que somos realmente e aquilo que nos influencia. Simplificadamente é uma limpeza interior, como se deitássemos fora tudo o que consideramos desajustado através da auto-observação, como método de monitorização de comportamentos, e do auto-controlo como força para vencer todo este processo.

Depois de toda esta viagem de “limpeza” conseguimos descobrir o que realmente queremos, o que precisamos de fazer para lá chegar, diminuindo o desgaste de energias porque tudo fica mais fácil quando conhecemos o sentido, a direcção objectiva para alcançar a nossa meta.

Não é fácil? Não! Mas é possível e eficaz porque é fruto de uma reprogramação onde nós somos seres activos em todo o processo.

A minha alteração altera o comportamento de cada pessoa que está ao meu lado, como um ciclo, onde comportamento gera comportamento. Podemos pegar “na nossa vida” e decidir o que queremos fazer com ela, somos responsáveis por nós e pelos outros.

E agora, vamos deixar tudo como está?