Dr. Geraldo Oliveira, Psiquiatra com vasta experiência profissional em diversas casas de saúde mental e clínicas psiquiátricas é o convidado para os Saberes em Conversa desta semana. Vamos usufruir da sua experiência?
1- Recentemente estudos indicaram que Portugal é um dos países da Europa com maior número de pessoas em tratamento de saúde mental. Por que índices tão altos?
Eu penso que para além das patologias clássicas da psiquiatria (esquizofrenias, doenças maníaco-depressivas,hoje bipolares, demências, alcoolismo e neuroses), outros desequilíbrios emocionais surgem com a evolução do mundo contemporáneo e da sua solicitação: é tudo muito rápido e mediatizado. É tudo pra ontem! Daí que quem não tem boa estrutura psicológica vai abaixo. É o fenomeno da adicção de drogas, distúrbios alimentares (bulimia, anorexia), depressões (distúrbios emocionais) e, obviamente, com o aumento da esperança de vida, as demências devido a degeneração do Sistema Nervoso Central. Isto é um fenómeno de todos os paises ocidentais desenvolvidos ou em desenvolvimento e não só um fenómeno de Portugal, ok?
2- O Sistema Nacional de Saúde permite que os médicos de família prescrevam antidepressivos e calmantes quase que indiscriminadamente. O Dr. Geraldo acha que isto é suficiente para a melhoria dos estados depressivos, ansiosos ou outros estados psicopatológicos e a conquista do equilíbrio e bem-estar?
É mais fácil dar calmantes e anti-depressivos (que às vezes também são importantes) e mais rápido do que conversar com as pessoas e aliviar-lhes a sua angústia existencial. Isto nem precisa ser um trabalho diferenciado do psiquiatra, ou psicólogo clínico. É ter tempo para as pessoas. Mas os médicos de família não tem tempo pra isto. Daí o uso mais indiscriminado destes medicamentos. Mas, olhem, os Serviços de Psiquiatria já vão no mesmo caminho, pelo excesso de doentes. Já não há tempo pra conversas. É incrível, né? É o Sistema que está mau. Acho que o problema é psicoeducacional (educação familiar, social e escolar) e as pessoas deveriam ser mais espitualizadas e ter uma melhor estrutura emocial para enfrentar melhor as situações adversas, e assim poupavam os médicos de famílias, e também cresciam como pessoas. Não sei como fazer isto, as pessoas deveriam se reunir para discutir como fazer isto : psicólogos, terapeutas, pedagogos, pais, enfim pessoas importantes na sociedade.
3- A psiquiatria é ainda vista como a medicina para os loucos. Vamos desmistificar esta questão: em que sentido a psiquiatria pode colaborar para um melhor desenvolvimento pessoal e uma vida emocional mais saudável?
Aqui temos um problema grave. Do meu ponto de vista ético e económico de quem trabalha para o Serviço Nacional de Saúde que exigem cada vez números maiores de consultas em detrimento da qualidade (ou seja é a lei do “despachar”) e quem trabalha no seu consultório privado que tem mais tempo para o seu doente (claro o doente está pagar e, às vezes muito bem) e o profissional vai usar estratégias psicoterapéuticas variadas, visando sempre um melhor bem estar do paciente. Numa perspectiva mais romântica, se se deixasse de lado o problema económico, os psiquiatras, ou terapeutas ligados a saúde mental, poderiam dar mais qualidade de vida aos seus paciente, penso eu.
4- De sua experiência pessoal e profissional o que falta ao homem para ser feliz?
O bem supremo, o soberano bem é a felicidade, é a serenidade, é saber dominar as nossas paixões para verdadeiramente sermos livres. É desenvolver a virtude intelectual (teórica e prática para ser-se sábio) e a virtude de carácter, a bondade, a generosidade, a tolerância, o altruísmo, a solidariedade. É fácil, não é? Isto é base filosófica de toda religião.
Onde posso encontrar o Dr. Geraldo Oliveira. Gostaria de uma consulta para meu filho.
Grata
Divani
Iremos responder por email. Obrigada pela intervenção.
É tudo muito complexo. Thank You very much
1) Sobre a Psiquiatria e psicologia: A psiquiatria e psicologia clínica, são duas disciplinas que se complementam. Ambas se preocupam com a vida psíquica, o bem estar das pessoas e eventualmente tratar algum desequilíbrio (a doença).
A psiquiatria obviamente por ser especialidade médica, muitas vezes pensa na doença mental como alterações da bioquímica do cérebro (é a escola organicista-modelo dominado pelos americanos) e trata estas doenças com fármacos (isto também é verdade), mas nós sabemos
que a vida psíquica e o adoecer psíquico é muito mais complexo que isto. É óbvio isto é minha opinião ( que qualquer distúrbio emocional vai levar a alterações bioquímicas-que claro vai precisar de fármacos) más o tratamento psicológico-psicoterapêutico, seja ele qual for (praticado ou por psiquiatras com formação nas áreas ou por psicologos clínicos HABILITADOS e
não curiosos) é muito vantajoso. E a psiquiatria e a psicologia (fármacos e psicoterapia) penso podem e devem se complementar muito bem.
2) em relação aos problemas existenciais: Como sabem existem vários tipos de psicoterapia: para todos os gostos e feitios . É claro que muitas vezes as pessoas não percebem desta matéria e vão pra aquilo que lhes mandam. Mas quando percebem ou começam a perceber alguma coisa, normalmente seguem as suas intuições e procuram aquilo que mais se identificam. É como tudo na vida – gostos não se discutem. Isto só pra dizer que existem várias psicoterapias e uma delas é a chamada psicoterapia existencial (que nada mais é que uma mistura de psicoterapia filosófica, com psicanálise e se precisar também alguns fármacos- enfim é uma mistura, más que quando feito por alguém com formação e experiência tem excelentes resultados. Mas obviamente um paciente pra fazer este tipo de trabalho, é preciso de ter algumas preparação escolar-intelectual, capacidade de “insight”. Não é fácil, más é possível bons resultados. Normalmente quem procura este tipo de terapia são pessoas angustiadas. E angustiadas com o quê ? Com o vazio existencial que se encontram, que normalmente as pessoas acabam ou por preencher com uma “depressão”, ou com álcool, ou outra droga, ou uma outra doença psiquiátrica qualquer. Normalmente este vazio está relacionado, ou com o “medo da Morte”(ou medo de viver), o “isolamento” (dificuldades
relacionais), com a “Liberdade” (somos condenados a ser livres e fazer as nossas escolhas e daí termos que assumir as nossas responsabilidades – causa/efeito – acção-consequência- SARTRE)e a “Perda do sentido da vida” (quem é que muitas vezes não se sente perdido e desmotivado e querer se matar). E isto pode ser tratado individualmente ou em grupo.
Gostei de ver o vosso web. É bom haver quem se preocupe com o que vai e o que está acontecer no nosso mundo. Ao longo da história sempre houve alterações mais ou menos profundas no caminhar da humanidade. Temos a sensação que estamos a caminhar para mais uma profunda alteração. Antecipar as mudanças é uma forma de reagir de forma positiva às convulsões inevitáveis.
1 – ‘trabalho diferenciado do psiquiatra, ou psicólogo clínico’ Parece haver uma área comum de actuação da psicologia e da psiquiatria, onde está a fronteira entre elas?
2 – ‘angústia existencial’como se manifesta?